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sábado, 4 de dezembro de 2010

“Pai, volta pra casa”

A verdadeira história do Homem do Saco

“Eu estava tomando cerveja na padaria, quando olhei pra fora e vi um homem de terno segurando o braço dele”, conta Cláudio de Andrade. Um mendigo velho, com o corpo coberto por um monte de sacolas plásticas sujas, era segurado por um homem engravatado. “Pai, volta pra nossa família”, dizia o jovem. Segundo os taxistas que trabalham lá perto, esse rapaz era um advogado.
Cláudio morou no Capão Redondo por muitos anos. E assim como todos os que andam pela região do metrô, conheceram o misterioso – porém carismático – Homem do Saco, como era chamado.“Pois é, ninguém sabe direito por que ele vivia nas ruas. Alguns dizem que ele largou tudo depois de uma desilusão amorosa. Dizem até que era um engenheiro. Mas isso são só alguns boatos”, afirma Cláudio.
“Uma coisa ele tinha de bom: não mexia com ninguém nem recebia nada”, conta a Irmã Tereza Bastelli, uma das raras que conheceu um pouco desse senhor. “Ele nunca pedia nada, no máximo aceitava comida de algumas pessoas específicas. Uma vez eu ofereci uma camiseta nova e ele recusou. Disse que não precisava, que aquela toda rasgada que ele usava por baixo das sacolas ainda estava boa”, detalha a freira.
Uma das pessoas com quem ele conversava era Arianne, uma garotinha para quem ele revelara até o nome. “Eu ia à padaria e os dois ficavam lá conversando. Ela gostava muito do Raul, e ele, por sua vez, era muito simpático com ela”, conta Geni Oliveira, mãe de Arianne. “Uma vez, não sei como, ele tinha cinco reais e queria comprar alguma coisa nessa padaria. Mas é claro, não deixaram entrar. Estava muito sujo e fedido. Isso deixou a Anne louca da vida”, explica a mãe.
“Ele tinha dinheiro, por que não deixavam entrar?”, conta revoltada até hoje a menininha de 10 anos. Ela perguntou ao andarilho o que ele queria comer e comprou um lanche para ele com aqueles cinco reais. “A Arianne insistia tanto, que às vezes a gente deixava uma sopa para ele na portaria do condomínio”, diz Geni.
“Se você perguntasse quando ele foi parar na rua, ele não respondia. A mesma coisa se você perguntasse da família. Posso te dizer que ele está aqui pelo menos desde 1982, que foi quando cheguei ao Capão”, relata Ceará, dono de um bar. “Eu era uma das pessoas que mais conversava com ele e, por isso, também era um dos poucos de quem ele aceitava comida. O velho sempre vinha almoçar aqui. Mas toda vez que eu perguntava da família ele ficava quieto.”
Ceará foi uma das pessoas presentes nos momentos finais do Homem do Saco. “Acho que foi em 2005. A Irmã Tereza me disse que ele estava machucado.”
“Eu estava rezando quando uma colega me disse que o Raul estava debaixo de um saco há três dias. Para mim, o próximo é quem está lá. Larguei o que estava fazendo e fui vê-lo”, relata a Irmã Bastelli. “Cheguei lá e ele estava embaixo de uns sacos, só com a perna de fora, tomando chuva.” Tereza estava com Ceará e sua esposa.
“Foi um carro que passou em cima da minha perna, tá doendo muito”, disse o mendigo. Eles logo ligaram para a emergência, pedindo que viessem resgatar um morador de rua. Mas a ambulância demorou muito para chegar. “Passava uns 20 minutos, a gente ligava outra vez e nada”, relata a religiosa. Ela ligou para a polícia e disse: “Por favor, tem uma pessoa aqui doente, já estou desde manhã com ele esperando”.
Os policiais disseram para ela ir embora, que também já tinham recebido o pedido e que dali a pouco iriam lá buscá-lo. “Olha, não vou sair daqui. Estou com um homem que está tomando chuva e com o pé inflamado. Ele precisa ir para o hospital”, respondia a freira. Ainda sim, pediram para que ela voltasse para casa. “Não vou pra casa enquanto não chegar uma ambulância pra levá-lo ao hospital. Se vocês chegarem aqui não vão sequer perceber que é uma pessoa, vão pensar que é um amontoado de lixo. Estou com 20 de pressão, tenho 84 anos, mas não vou deixá-lo aqui sozinho” resistiu a senhora.
Ceará ameaçou ligar para um jornal e, aí sim, uma ambulância chegou. Tiraram os sacos de seu corpo e o puseram numa maca. Nesse momento, Raul chamou a Irmã Tereza Bastelli com um gesto. O que estava prestes a fazer é um dos maiores mistérios que envolvem o Homem do Saco. Tirou de uma das sacolas restantes um envelope. E lá havia 140 reais. “Seu Raul, vou guardar para o senhor”, disse a freira.
“Meu filho, custou para encontrá-lo quando fui lhe fazer uma visita no Hospital Campo Limpo. Não o reconheci; deram banho e cortaram a barba. Foi só aí que descobri que ele era branco”, relata a Irmã. “E foi lá mesmo ele morreu depois de uns dez dias. Ele estava todo infeccionado”.
“Com aquele dinheiro, comprei alimento e doei”, conta ela a respeito do destino da herança de um mendigo.
“Mais ou menos um ano depois, apareceu um casal no convento perguntando sobre ele”, continuou a freira. A mulher era irmã de Raul e explicou que ele não gostava de morar na casa deles. “Só que agora nós compramos um sítio, fizemos um quartinho para ele e viemos procurá-lo”, indagou a mulher esperançosa, mostrando o documento de identidade do irmão.
Tereza Bastelli teve de dar a notícia. “Ele morreu, mas morreu sossegado e muito bem cuidado”. O casal nunca mais voltou. “Gostaria de saber onde ele foi enterrado, para poder confortar a família”, lamenta a Irmã Bastelli.
“Sabe, quando as pessoas vêm um mendigo, geralmente ficam com medo. Mas com ele era diferente. Todo mundo aqui tinha um certo carinho por ele”, recorda Ceará.
Ao contrário dos moradores de rua comuns, Raul não foi invisível. As pessoas não só notaram, como também sentem sua falta. “Ele era muito bom. Não sei se eu sou tão boazinha como ele”, declara Tereza Bastelli. “Às vezes me dizem: ‘dá saudade do Seu Raul’. Aí eu digo: dá mesmo.”

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Alguma coisa tem mudado da ponte pra cá

A história das mudanças e desenvolvimento de um bairro ao mesmo tempo muito e pouco conhecido

“Quando meu pai se mudou para cá, o Capão Redondo ainda nem tinha esse nome”, conta a senhora Vilma De Lucca Urizzi, de 73 anos, moradora do bairro desde que nasceu. Justamente por ser um bairro famoso internacionalmente por sua pobreza e violência, poucos sabem que seus primeiros habitantes “eram de famílias abastadas. Foram alemães que viviam em Santo Amaro que acharam a região muito bonita e decidiram comprar um terreno enorme”, revela Dona Vilma sobre a venda de 70 alqueires (mais de 1,6km) para adventistas que fundariam lá uma grande instituição de ensino em 1915.
O CAB (Colégio Adventista Brasileiro), mais tarde conhecido como IAE (Instituto Adventista de Ensino) e hoje tido como Unasp (Universidade Adventista de São Paulo) foi um ponto de partida para o crescimento do Capão Redondo. “Proprietários começaram a comprar terras em volta do colégio, onde matriculavam seus filhos”, explica Vilma.
A luz elétrica chegou à região entre 1956 e 57, um pouco antes de asfalto que veio em 58, quando Luiz Antônio de Luca ainda era uma criança de quatro anos. “Lembro que tinha só um ônibus que passava aqui. Era o ‘Jardineira do Guerra’, que ia para Santo Amaro, de onde saiam bondes ou outros ônibus para o centro”, descreve Luiz. “Isso aqui era como o campo. Na época dizíamos inclusive que estávamos indo para a ‘cidade’, não para o ‘centro’, como dizemos hoje.”
E o Capão Redondo tinha razões de sobra para ser considerado como campo. “Aqui onde hoje é o pátio de manobras do metrô era um campo enorme de plantação, com um córrego atrás. Hoje em dia o que resta é o córrego poluído”, detalha Luiz de Luca.
“Já haviam alguns barracos isolados por aqui quando eu era pequeno, mas as grandes ocupações irregulares começaram mesmo lá por meados dos anos 60”, fala o morador a respeito do que então levaria o bairro a uma fama internacional de pobreza.
As décadas seguintes trouxeram índices de homicídios comparáveis aos da Guerra do Vietnã. Mas essa história e pobreza e mortes todos já conhecem, ou pensam que conhecem.
Mas o fato é que de uns anos para cá, a vida de quem mora nesse bairro tem mudado consideravelmente, e não só pela redução nas estatísticas de violência. “Eu me lembro de quando começou a surgir um monte de lojas de móveis e eletrodomésticos lá perto de casa. Fiquei até com medo de que aquilo ali virasse um Largo 13”, conta Fabíola Fabbris, 20, sempre moradora do Capão.
Priscila Miagui, que mora e trabalha no bairro, lembra ainda detalhes interessantes dessas lojas. “Elas foram construídas com uma pilastra na fachada, pra impedir que algum caminhão arrombasse o portão e roubassem a mercadoria.”
“Depois da construção do metrô, a região ficou mais valorizada. Começou a surgir de um dia para o outro um grande comércio em volta da estação Capão Redondo. Agora nós temos até um shopping”, diz Fabíola sobre o Shopping Campo Limpo, inaugurado em 2005.
E esse crescimento trouxe muito mais empregos para o Capão Redondo, o que serve de exemplo de logística para a cidade de São Paulo. “Milhares de moradores, que antes tinham de se locomover até a ‘cidade’ para trabalhar, agora gastam só alguns minutos para chegar ao serviço”, afirma Mariana Luz que trabalha no Capão e mora no Campo Limpo, bairro vizinho.
Mas para ela, embora tenha melhorado bastante, ainda há muito para se aperfeiçoar. “Aqui não tem baladas nem restaurantes”, queixa-se a estudante. “Apesar de termos o Hospital Campo Limpo, que aliás está bem melhor, ainda precisamos de mais médicos e clínicas por aqui”, acrescenta. Mesmo assim, ela toparia viver por lá para o resto da vida. “Se as condições de vida continuarem melhorando, não tenho por que me mudar. Quem vive no centro também tem suas desvantagens, como o caos e o barulho, por exemplo”, esclarece Mariana.
“Esse lugar tem mudado muito”, comenta Dona Vilma. De 1937 pra cá, ela é uma das poucas que sabe tanto sobre o que se passou no Capão Redondo. Imagina também o que ainda virá de bom sem se esquecer do que jamais voltará. “Isso tudo era maravilhoso, lindo. Eu cresci brincando no córrego limpo, pulando nos cipós que tinham na mata daqui. Tinha até animais silvestres, como veados. Nós dormíamos de porta aberta...”



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CouchSurfing: A melhor forma de viajar

Não se trata de uma propaganda de agência de turismo. A maneira mais barata é também a melhor para conhecer outros países

“Cara, viajei para vários lugares: Irlanda, França, Grécia, Suécia, República Tcheca, Hungria, Croácia, Áustria, Itália...”, conta Luiz Castel, engenheiro químico. O que há de especial nisso tudo é que por praticamente todos os lugares em que passou, dormiu em um sofá. Ele é membro da rede social CouchSurfing, que promove uma interação entre amantes por viagens. Alguns dos participantes oferecem seus sofás como forma de hospedagem para outros membros da comunidade. “O que a gente gasta com estadia dá cerca de 30% dos custos de uma viagem. Acho que já economizei uns 3 mil euros.”
“Mas a ideia do CouchSurfing não é só economizar. Ele resgata valores, como o da confiança, a ponto de você receber um viajante desconhecido em sua casa”, conta a assessora de imprensa Ana Carolina Alves. “O CS é uma forma diferente de conhecer pessoas e lugares. As viagens não seriam a mesma coisa se fossem feitas com um guia turístico”, acrescenta.
E a comunidade não existe só para viajantes. Você pode ser um membro sem ter que oferecer seu sofá. “Fazemos uma reunião toda semana em um bar de São Paulo. Aqui vêm pessoas que estão viajando ou apenas quem só quer interagir com a gente”, explica Ana Carolina.
“É muito fácil se misturar com o pessoal aqui. Os novatos recebem um crachá vermelho. Aí, se alguém te ver sozinho, vai lá e conversa com você”, diz Luiz Castel.
E de fato dá para fazer um baita intercâmbio só de conversar com os estrangeiros, que são cerca de 40% das pessoas do bar. Pieter Glas, um tradutor holandês, falou muita coisa sobre seu seus país e os outros que visitou pela Europa. “Gostaria que as pessoas visitassem a Holanda para admirar nossa arquitetura e diversos pontos turísticos, em vez de vir acreditando vão encontrar só drogas e prostituição”, desabafou ele. Além disso, discutiu e perguntou sobre o Brasil, Pré-Sal e imigração.
Numa mesa, conversando com brasileiros curiosos, estava um professor de bioquímica da Universidade de Havana. Você sabia que em Cuba você não pode hospedar alguém em sua casa? “Um dia ou dois no máximo, mas não podemos chamar nem um amigo que more em outra província, muito menos alguém de fora do país”, revela Dayrom Gil, que está no Brasil para pesquisas com professores da Unifesp. Portanto, o CouchSurfing é proibido em Cuba, assim como o acesso livre a internet. “Lá nós não podemos ter internet em casa. Só indo para um cyber café, onde a internet ainda é censurada”, conta o cubano.
Qualquer um pode se inscrever no site couchsurfing.org. “Na sua página pessoal você pode definir seu perfil como anfitrião. Lá você também revela hábitos, como se você fuma ou não, por exemplo”, comenta Carolina de Paula, uma carioca que se hospedou em São Paulo através do site. “A mulher que está me hospedando me entregou até as chaves da casa”, adiciona Carolina. “Eu entrei no CS em setembro, querendo hospedar pessoas. De lá pra cá, já hospedei seis pessoas. O mais legal foi um italiano, que inclusive me ajudou com algumas compras. Fiquei uma semana comendo macarrão de um italiano”, diz a carioca rindo.
Outros, como Luiz Castel, o engenheiro químico do começo dessa matéria, se diverte mesmo como hóspede. “Viajei 45 dias pela Europa e paguei só duas estadias. Na Suécia gastei 30 euros em cinco dias, sendo que os guias dizem que você gasta pelo menos 100 euros por dia. Sem contar com alguns luxos que dei a sorte de encontrar. Na Bélgica, uma senhora de 50 anos me encheu de chocolate e cerveja Belga. Ela me mostrou a cidade inteira, e me deu toda a comida da casa dela”, conta Luiz.
E suas viagens continuarão: “Meu próximo sofá está me esperando no México”, conta o CouchSurfer.

domingo, 26 de setembro de 2010

Tudo que você precisa saber até o próximo dia 3

Muito cuidado na hora de apertar “Confirma” este ano, você pode ter surpresas

“Se você pensa que votar nulo vai provocar a convocação de novas eleições está muito enganado”. O alerta é de Gianfranco Faggin, analista processual do Ministério Público Federal. Ele explica que “isso é lenda urbana. É uma mentira absurda. A única hipótese de cancelamento de uma eleição é quando ocorre comprovação de uma fraude que afete mais de 50% dos eleitores”. Ele explica: “Se você votar em Branco ou nulo dá na mesma. Esse voto não vai para o candidato que recebeu mais votos.”

Diante dessa necessidade de achar alguém em quem votar é que o eleitor deve tomar mais cuidado ainda. Existem muitos políticos com ficha suja que por enquanto não tiveram suas candidaturas impugnadas. Da mesma forma que existem inclusive candidatos sendo procurados pela Interpol. Todavia, a lei impede que eles sejam bloqueados. “Pela Constituição todos são inocentes até serem julgados em última instância. Caso sejam eleitos e depois forem considerados culpados, aí sim serão automaticamente cassados”, explica Gianfranco.

Outro assunto polêmico neste ano foi a tentativa de alguns candidatos impedir que humoristas fizessem piadas ridicularizando-os. O fato só se tornou ridículo de verdade quando muitos dos postulantes a cargos eletivos começaram a fazer palhaçada durante o horário político. “Além disso a lei brasileira não contempla a censura, que remonta períodos que não gostaríamos que fossem lembrados”, afirma o analista. “O Supremo reconheceu o direito de manifestação dos humoristas. Mas por ser uma liminar, teve apenas efeito suspensivo.”

Por outro lado, se você está ficando cada vez mais tentado a fugir das urnas, saiba primeiro o que pode acontecer a quem não vota e nem justifica. “Essas pessoas recebem uma multa, que muitas vezes é pequena demais. O mesmo vale para os candidatos que praticam irregularidades, como propaganda antecipada. Logo, o custo-benefício acaba valendo a pena, já que esses candidatos de grande porte foram multados em apenas 5 mil reais por infração”, conta o analista. “Enfim, esse tipo de punição mais fraca é um incentivo tanto para o povo, como para os candidatos. Isso acontece porque quem faz essas leis são os próprios políticos, eleitos exatamente pelo povo”, conclui.

E por fim, há uma informação importante a respeito dos candidatos que têm feito da palhaçada uma forma de conquistar votos. “Existe a figura dos puxa-votos, como foi o caso do Clodovil e muitos outros. O Enéas, por exemplo, teve cerca de 1,5 milhão de votos, e com isso conseguiu quatro cadeiras no congresso. Na ocasião, os outros três mais votados pelo PRONA também foram eleitos, sendo que um deles tinha apenas 200 votos.” Gianfranco dá um alerta sobre o artifício usado por muitos candidatos corruptos que querem voltar ao poder. “Eles podem conseguir isso mesmo sem receber o seu voto. Não se enganem, tem muita gente por trás desses candidatos cômicos à espera de uma chance de serem eleitos”, avisa o especialista em processo eleitoral.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Como fazer até pedras falarem

Se você ainda acha que aprender inglês é algo chato, conheça o grupo teatral Speaking Stones

“É a melhor sensação do planeta”, diz Camila Honorato, 15, sobre fazer teatro em sua escola de idiomas. E assim como todos os amigos que fez por lá, ela não tem dúvidas de que acrescentar teatro ao seu curso de inglês foi a melhor forma de aprender a língua.
Só há aulas de teatro uma vez por semana, mas os alunos não conseguem se afastar da escola. É um ponto de encontro para ensaiar e estudar. “Até mesmo às vezes, quando não tenho nada pra fazer, venho pra cá só pra ver se encontro o pessoal”, admite Luiz Francisco, um dos mais velhos do grupo, com 17 anos.
Essa relação entre aluno e escola também agrada aos professores. “Poxa, isso torna tudo muito mais humano. Uma escola não pode querer alunos apenas dentro da sala de aula”, diz teacher Soraia sobre a vontade de frequentar a escola que surgiu entre os alunos. “Essa também é nossa função”, completa ela.
“Pensei que se entrasse nesse grupo de teatro, poderia me expressar melhor. Inclusive em português”, conta a envergonhada Crislaine, de 15 anos. Já Bruno, procurou o teatro por outro motivo. “Pra mim a questão não era bem timidez, não sou tímido. Entrei pelo inglês mesmo”, explica o rapaz.
Como as peças que apresentam são todas em inglês, os alunos são forçados a estudar os importantes e mínimos detalhes do idioma, como a pronúncia. “De tanto ir repetindo e exercitando você vai gravando tudo na cabeça”, explica Luiz Francisco. Seu colega de palco e amigo, Carlos Eduardo, complementa: “além do mais, aprendemos expressões e gírias que não vemos em sala de aula”.
O desafio de montar uma apresentação com figurino, cenário, trilha sonora e tudo o mais que um grande espetáculo engloba é uma grande provação para os jovens. “A gente pega muito mais confiança em tudo e compreende a necessidade de ajudar os companheiros”, diz Brenda sobre o esforço que só pôde ser visto por aqueles que ficaram escondidos, trabalhando atrás das cortinas também.
“Quando a peça termina, vem todo aquele alívio de dever cumprido. Aí você vai, agradece à plateia e se sente diante de algo inexplicável”, conta Camila Paes, lembrando ainda de sua última apresentação, há quase dois meses. Sua xará Camila Honorato resume seu conceito de teatro, que já ficou muito além de apenas aprender o inglês. “Compreender a convivência, organização e a noção de responsabilidade é o mais importante”, detalha a atriz bilíngue.

Crescendo sem pais

As crianças criadas em abrigos

Eliane é mãe de quatro filhos. Seu marido é viciado em drogas e a agride com frequência. Suas condições financeiras não lhe possibilitam cuidar dos quatro filhos, tampouco do quinto que está para vir em breve.
“Todos familiares de Eliane insistem para que largue o marido, mas ela fez questão de dizer que o ama na frente do Juiz”, conta a assistente social Fátima Lopes de Oliveira.
Esse é um caso comum na Vara da Infância do Fórum de Santo Amaro, e o Juiz em questão avaliava as possibilidades de se manter a guarda das crianças com a mãe. Seus filhos foram enviados para um abrigo, onde primeiramente passarão pelo processo de reintrodução à família. “E caso seus pais ou familiares sejam considerados incapazes de possuir a guarda, essas crianças são encaminhadas para adoção”, relata Fátima.
O Lar São Thiago é um abrigo localizado na Zona Sul de São Paulo, próximo a Itapecerica da Serra. Essa casa abriga 39 crianças, a maioria delas já com mais de oito anos de idade. A instituição sempre passou por inúmeras dificuldades, como falta de alimento e estrutura. O lar depende muito de doações, mas não é apenas comida o problema do lugar. “A gente também sente muito a falta de produtos de limpeza, pois recebemos geralmente apenas alimentos”, explica Vera Lúcia Moraes, monitora do Lar São Thiago.
Um muro foi construído recentemente para que as crianças não tivessem contato com um córrego poluído que passa por trás do playground do lar. A sala de estar possui goteiras no teto e há outro muro, mas este com risco de desabar sobre o lugar onde antigamente funcionava uma horta.
Frente a todos esses problemas, está uma equipe de voluntários que trabalham diariamente na instituição. “O pessoal da limpeza e da cozinha já trabalha com a gente há muito tempo, são funcionárias fiéis. Estão aqui todos os finais de semana”, conta Vera.
E assim o abrigo vai tomando conta das crianças até que seus pais tenham os problemas judiciais resolvidos. Quando isso não acontece, o menor pode ser enviado para adoção.
Porém, muitos deles já estão em idade avançada ou têm irmãos, o que dificulta o processo. “Há irmãos que são adotados juntos, mas geralmente é um caso de adoção internacional. Assim como crianças deficientes”, revela a assistente social. Segundo ela, não há muitas adoções desse tipo por parte de brasileiros. “Os irmãos podem até serem separados na adoção, desde que as famílias assumam o compromisso de manter contato entre eles.”, declara.
De qualquer forma, esse tipo de adoção se torna raro. “Algumas dessas crianças desenvolvem um sentimento de culpa, pois assumem alguma responsabilidade pela distância com os pais. Mas em outros casos, essas crianças sequer sentem a falta de uma mãe. Só sentiriam falta dos próprios irmãos”, diz Fátima.
E por fim, alguns desses jovens chegam à maioridade. “Nesses casos a gente tenta reintegrá-lo com a família, mas nem sempre é possível”, afirma Vera. Se não houver algum responsável com quem deixar o jovem, a única coisa a ser feita pela Vara da Infância é um trabalho de autonomia que o prepare para ser independente, definindo assim o fim de uma etapa na vida de um jovem sem pais.

O que os cegos veem

A Projeto Acessibilidade exibe fotos tiradas por cegos


Foto: João Maia

“Com licença, posso tirar uma foto de vocês?”, é assim que Marco Oton, deficiente visual, aborda as pessoas na rua. Qualquer um olha com estranheza o sorriso desse rapaz que carrega nas mãos uma câmera e uma bengala de cegos.
Mirando a câmera para um grupo de pessoas ele ajusta o enquadramento. “Quem está na esquerda? E na direita? Por favor, quem estiver no meio fala alguma coisa”. E ouve-se o som do capturador da máquina. Logo os fotografados caminham até ele e conferem o surpreendente resultado no visor digital.
Marco e outros deficientes visuais fazem parte do projeto Alfabetização Visual, desenvolvido no Senac Santo Amaro desde abril de 2008.
“A ideia surgiu dos alunos de informática para deficientes visuais aqui do Senac”, revela Fernanda Romero, professora de fotografia. “Eles levaram a proposta ao professor João Kulcsár, coordenador do projeto Imagem e Cidadania. Ele abraçou a ideia e logo os alunos estavam em aula”.


Fernanda Romero

Em 2010, o projeto exibiu sua segunda exposição, chamada “Acessibilidade”. Ela expõe fotos tiradas durante o ano de 2009. Os fotógrafos focaram os problemas enfrentados por deficientes visuais nas ruas de São Paulo.
“Fizemos algumas excursões. Em frente à Fundação Dorina Nowil está o único semáforo sonoro da cidade que, a propósito, está quebrado”, conta Fernanda.
As fotografias são tiradas de uma perspectiva diferente, destacando o que ninguém vê, como detalhes de relevos nas ruas. As câmeras são colocadas no mesmo nível do chão, para ressaltar as saliências que tanto diferenciam a caminhada de um cego.
“As fotos deles são mais elaboradas do que a de um fotógrafo comum. Eles não só sabem os retratos que querem: há um processo de concepção da imagem muito mais forte. Quando se imagina e elabora tudo, uma captura mais certeira é possível”, explica a professora.
Algo que impressiona é a qualidade técnica das fotografias. Nota-se que os planos, como distância e proximidade, são enfatizadas. “Há um recurso de profundidade de câmeras, que a gente consegue de diversas maneiras, como colocar a máquina próxima ao objeto que se quer fotografar. Eles já estão incorporando inclusive técnicas fotográficas abordadas nas aulas”, adiciona Fernanda Romero.
As fotos são tão peculiares quanto à própria concepção do projeto. “ Mesmo havendo um preparo de onde posicionar a câmera, escolha dos enquadramentos, o resultado visual sempre será imprevisível e único”, afirma Fernanda.

A loucura escondida em nós

Mesmo que imperceptíveis, todo louco tem mesmo suas manias

“Hitler pode ter sido uma pessoa com problemas relacionados ao ânus”. A afirmação é de Bruno de Luca, 20, estudante de psicologia, em relação ao excesso do desejo de ordem do ditador. “As crianças entre dois e quatro anos começam a segurar a vontade de ir ao banheiro devido ao surgimento da consciência do domínio do esfíncter, o que lhes dá pela primeira vez a sensação de controle. Uma frustração vivida por uma criança nessa fase, como defecar-se em público, pode influenciar uma personalidade pelo resto da vida”, explica Bruno.
Pouco se sabe a respeito das manias, ou melhor, TOCs (Transtorno Obsessivo Compulsivo) de Hitler, mas com certeza todas eles estão relacionadas às suas experiências e/ou frustrações. Segundo o autor e psicólogo Daniel Marcelli, em seu livro Infância e Psicopatologia, “as condutas obsessivas assumem a forma de pequenos rituais dispostos em setores suscetíveis de mobilizar a angústia”.
Bruno Bezerra, estudante de jornalismo, diz ter hábitos muito estranhos. São basicamente rituais que realiza na hora de se arrumar. Ele religiosamente veste primeiro a calça e depois a camiseta. Na hora de tirar a roupa, tem que manter a mesma ordem: calça e depois camiseta. E com os sapatos também. Se calçar primeiro o pé direito terá de descalçá-lo antes do esquerdo.
“Esses TOCs não tem origem definida; mas provavelmente são frutos de alguma experiência que traumatizou e traz angústia ao ser humano”, conta Marina Fernandes, estudante de psicologia. “Muitas vezes as pessoas sequer se lembram dessa tal experiência, mas ela fica gravada no subconsciente”.
O mais impressionante é que todos têm hábitos que não possuem muito nexo. Muitos conhecem essas manias, consideram-nas ridículas, mas não conseguem controlar tal comportamento compulsivo.
O simples ato de mexer no volume da televisão ou do rádio do carro abriga uma mania quase unânime entre as pessoas. Começa-se a aumentar o volume da TV até o momento em que o som se tornar agradável, e nesse momento checa-se o número que o aparelho exibe. Se o volume estiver marcando 19, torna-se quase irresistível arredondá-lo para 20. Pois é, a vontade de ordem visual supera a satisfação que o volume traz.
E há ainda outros exemplos mais comuns. Quem nunca comeu aquele chocolate chamado Tortuguita? Aquele em cuja propaganda uma tartaruguinha sempre tinha sua cabeça comida. Seja por influência do comercial ou não, é difícil encontrar alguém que comesse o chocolate todo de uma vez. Há algo que praticamente força as pessoas a comerem primeiro a cabeça, patas e rabinho para depois deliciar o casco recheado.
Cada um pode ter um motivo para fazer isso, mas é óbvio que tudo tem origem em alguma (micro)angústia. “Seja você Hitler ou qualquer outra pessoa; ninguém é livre de uma experiência que tenha gerado frustração e pelo menos alguma mínima obsessão”, resume Marina.

O setor de diversões tem vagas sobrando

O que poucos sabem sobre como descobrir e utilizar um palco para realizar suas apresentações e tentar subir na vida


Foram três anos de vazio, aguardando ansiosamente pela sensação de estar num camarim novamente, olhando para aquele espelho rodeado de lâmpadas. A vontade e a saudade eram enormes, mas como voltar a atuar? “Meu, nem posso acreditar, o teatro é nosso”. O desabafo é de Rodrigo Araújo, estudante que ao lado de quatro amigos aprecia o palco que agora tem para usufruir. O momento chegou e a distância pouco importa agora. Alguns deles pegaram três ônibus, numa viagem de quase uma hora e meia até o CEU Vila Rubi, na região do Grajaú.
Todos estavam felizes pela primeira reunião do Grupo de Teatro Ateliense, formado por velhos amigos que simplesmente sentiam saudade dos palcos.
“Já temos apresentação marcada para 23 de maio aqui mesmo no CEU, e podemos usar o teatro para ensaiar todos os domingos”, conta Priscila Soares, líder do grupo amador. Eles estão ocupando apenas algumas poucas das centenas de cadeiras do teatro, ouvindo as novidades contadas pela diretora.
Poucos sabem das inúmeras opções de cultura que os CEUs (Centro de Educação Unificado) deixam à disposição da população. “Decidimos entrar em contato com a escola, e depois de apenas algumas conversas e propostas, a direção liberou um espaço para nós. A verdade é que não tínhamos dinheiro, mas queríamos um lugar para ensaiar”, conta Priscila.
O terceiro andar do CEU Vila Rubi abriga cinco ateliês, dos quais quatro ficam vazios e desperdiçados nas tardes de domingo. O Grupo Ateliense, cujo nome é um trocadilho entre “ateniense” e “ateliê”, ocupa apenas uma dessas salas.
“Será que há dez anos o Brasil ofereceria tanto espaço para uns loucos que só queriam fazer arte?”, questiona Rodrigo. “Uma coisa é fato: vivemos num país diferente daquele em que nascemos”.
“Quando fazíamos teatro estudantil, apresentamos em diversos lugares, e não podemos deixar de destacar que os CEUs têm os melhores equipamentos que já usamos”, explica Priscila sobre o patrimônio público.
Os atores ainda podem contar com a ajuda da instituição para imprimir textos e cópias utilizados para ensaios. “O objetivo, claro, não é ganhar dinheiro com tudo isso. Só queremos apresentar por diversão sem cobrar nada, no máximo um quilo de alimento não perecível para doarmos para alguma instituição”, expõe Rodrigo.
“Está tudo aqui à disposição da população, de graça. Agora falta apenas despertar o interesse pela arte nos brasileiros”, finaliza o ator, girando os braços para todos os lados do teatro.

Uma lente entre o coração e os fatos

Os relatos de quem captou o que resta do Haiti

“Saí de lá sem acreditar que aquilo pudesse se recuperar”, embora relute em dizer isso, é a única conclusão que Caio Guatelli – repórter fotográfico da Folha – tem a respeito da capital Porto Príncipe após o terremoto que pôs o Haiti abaixo.
As poucas informações que o mundo possuía eram muito desencontradas, apenas imagens de celular.
Chegar ao país já não foi tarefa ordinária. Só havia voos para a República Dominicana, país vizinho. De lá, cada equipe jornalística tinha de tomar seu próprio caminho. “Recebemos a informação de que um helicóptero nos esperava, mas ao voltar ao aeroporto uma equipe de TV americana já tinha pago um preço maior pelo transporte”, revela Caio. Por fim, conseguiram lugares num avião sem licença para voar, o que não fazia diferença, já que o aeroporto de Porto Príncipe não tinha mais controle algum. “Chegamos e em menos de cinco minutos o avião já tinha ido embora”.
“A gente tinha reserva num hotel, mas descobrimos que metade dele tinha desabado”. Por sorte, encontraram o Ministro da Defesa. Entraram escondidos no ônibus da ONU que levaria Nelson Jobim à base do Exército Brasileiro. “A base era um oásis no Haiti, uma vantagem que tivemos sobre as equipes de reportagem dos outros países”, explica o fotógrafo.
Lá, Caio diz ter vivido dilemas como jornalista. “Eu me vi ali no meio de tudo, bem vestido, alimentado e segurando um equipamento caríssimo. Eu tinha tudo, e as chances que os haitianos tinham de um dia obter tudo isso era mínima. Senti que poderia causar uma sensação ruim neles, como a de exploração da desgraça.”
Caio viu um homem ser morto em sua frente. Mas o mais chocante foi ver os assassinos tirando apenas algumas notas de seu bolso. Em seu terceiro dia lá, viu um grupo de 20 haitianos resgatando familiares. Sentiu-se ameaçado quando eles começaram a gritar com ele. “Me diziam: ‘por que você está fotografando nossa tristeza? Por que está fotografando nossos parentes mortos? O que você vai ganhar com isso?’”, relata Caio Guatelli. “Respondi que precisava mostrar para o mundo a situação. Eles entenderam, mas pediram pra que eu não continuasse ali”.



“A ajuda que a gente pode dar é mostrar para o mundo o que acontece, mas em alguns momentos agi de forma diferente. Vi uma menininha com a perna esmagada, pedindo minha ajuda. Nessa hora resolvi abandonar minha câmera e deixei de trabalhar por umas quatro horas pra tentar ajudar”, conta o repórter.
Mas as esperanças de quem esteve lá, ou ao menos de quem viu fotos que revelam o estado do Haiti, são praticamente nulas. De fato, uma destruição tão imensa e “democrática”, que afetou até o palácio do governo, não dá chances de reconstrução. “Das coisas que vi acho que a única solução seria uma união internacional para espalhar os habitantes do Haiti pelo mundo. Aquilo não tem solução, já era um país perdido”, afirma Caio Guatelli, a respeito de uma nação que em breve voltará a ser esquecida.

Ali no Capão Redondo morria mais gente do que no Vietnã

Como dizia Mano Brown, dos Racionais MC’s, o Capão Redondo já foi uma das regiões do mundo onde havia mais assassinatos. E como o próprio rap apontava, as raízes de tanta violência vinham da crise na educação. Só que não foi o governo quem providenciou as mudanças, mas sim a ONG comandada por “Seu Carneiro”. E a Ong ganhou até reconhecimento mundial.
“Desesperada, há cinco anos a diretora de um colégio veio pedir minha ajuda, dizendo que não sabia o que fazer com alunos armados e drogados”, conta Antônio Carneiro dos Santos, 73, diretor do Projeto Reviver Capão.
A Escola Estadual Professor Francisco Antônio Martins Júnior, localizada no Jd. São Bento Novo (Capão Redondo) estava com sua estrutura física em péssimo estado. “Grades em todas as janelas, chicletes grudados por todo o chão, sujeira. A escola estava um abandono”, afirma Bruna Gavioli, filha de “Seu” Carneiro, e atual responsável pelos eventos culturais do CEU Casablanca.
Contando com o apoio do Projeto Reviver nas Escolas, a então diretora do Martins Júnior conseguiu transformar os alunos e a instituição. “Passamos a dar pequenas palestras diárias de dez minutos no colégio. Os alunos precisavam aprender a cuidar de seu próprio patrimônio”, relata “Seu” Carneiro. Ele contou com a ajuda de diversos grafiteiros para restaurar a escola, não só com a pintura, mas com toda a reforma e limpeza. “Depois de algumas semanas de trabalho duro, a escola era outra”, orgulha-se.
A sede do Projeto Reviver oferece mais de 20 cursos profissionalizantes e artísticos, e a inclusão dos alunos do Martins Júnior nessas formações foi imprescindível para a mudança do colégio. Há professores altamente qualificados, como Diane Umbelino, de ballet. Os cursos ministrados por Diane em sua escola profissional localizada em Taboão da Serra custa 230 reais por mês. No Projeto Reviver os jovens da periferia pagam apenas 30.
Além de cursos, que antes dificilmente seriam frequentados por um jovem da periferia, o Reviver trouxe uma biblioteca com mais de 20 mil títulos ao Capão Redondo. “Seu” Carneiro ainda ajudou a criar outras 12 bibliotecas pela Zona Sul e Grande São Paulo.
A própria criação da biblioteca no Capão Redondo traz histórias interessantes, como a de um senhor de vida complicada, sem trabalho nem residência. “Seu” Carneiro exigiu que ele se arrumasse bem e o trouxe para o Reviver, onde teve sua aparência “tratada” por meninas do curso de cabeleireiros. “Quando meu pai viu que esse senhor tinha um interesse enorme por livros, colocou-o para organizar os volumes que o Reviver tinha. Hoje quem entra na biblioteca encontra tudo organizadinho. Esse senhor se tornou um apaixonado por aquele lugar”, diz Bruna.
As ações do Projeto Reviver Capão chegaram a ter reflexos nacionais e internacionais. Um dos diversos talentos impulsionados pelo projeto foi a modelo e atriz Natália Verena – ou só Natália mesmo, como “Seu” Carneiro prefere chamar. Natália hoje trabalha na agência de modelos Sagarana. “Eu ligava a TV e via a Natália todo dia na novela”, conta Carneiro sobre o tempo em que ela fazia parte do clipe de abertura da novela “Duas Caras”, da Rede Globo. E tratando-se de proporções internacionais, “Seu” Carneiro e o Projeto Reviver se transformaram em matéria do jornal The New York Times em 2007.
Essa inclusão à arte foi um fator determinante na mudança das estatísticas e cultura do bairro. Trabalhando num CEU, Bruna pode dizer a diferença que experiências com arte fazem na vida de um jovem. “Muitos não sabiam se portar dentro de um teatro, entender uma peça e o quanto aquilo era importante para vida deles”, conta. “É difícil colocar cultura goela abaixo, isso é um treinamento, algo que chamamos de ‘Formação de Público’”.
Uma estatística importante é a taxa de homicídios do bairro. Os oito assassinatos por final de semana se reduziram a três após um ano de existência do Projeto Reviver e seus parceiros, segundo dados da Polícia.
Tanto o pai como a filha acreditam que o problema da violência é resultado da falta de estrutura educacional do país. “As pessoas só precisam de oportunidades”, conclui Bruna Gavioli.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

100 anos de uma nação

Não existe alegria ou tristeza, só existe Corinthians




Independente do que outros torcedores ou pessoas que abominam futebol digam. Hoje é um dia especial, sim.
Não há torcida como essa. Não mesmo. Os corintianos são um fenômeno sociológico ainda não explicado. Nada pode contrariar fatos, ou melhor, quase nada. O advento da ciência fez com que a religião perdesse sua força. Certas verdades e fatos mudaram os conceitos filosóficos da humanidade. Por outro lado, 23 anos de jejum não foram capazes de afetar um clube. Pelo contrário, provar durante mais de duas décadas que o Corinthians não era um time vitorioso só fez com que sua torcida crescesse mais. E isso é único, jamais aconteceu algo semelhante na História. E não me refiro somente a torcidas de futebol. Nenhuma religião ou doutrina política foi capaz de crescer em situações tão adversas.
E falando nisso, que movimento político conseguiu deslocar uma quantidade tão grande de pessoas como a Invasão Corintiana? O último registro de uma movimentação assim foi e êxodo do Egito. Nós não ganhamos o título, mas não importa. É algo que só corintianos entendem.
Aos que pensam que essa paixão por futebol só revela alienação, digo: estão muito enganados. Provamos para o Brasil, em plena ditadura militar, que a democracia funcionava. Liderados por Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, ensinamos a todos que devemos ganhar ou perder sempre com democracia.
A paixão pelo futebol promove a integração entre a sociedade. Onde mais você vê um pobre e um rico se abraçando sem preconceitos senão na hora do gol? É nesse breve momento que esquecemos que temos cores, religiões ou ideais políticos diferentes. É gol, porra! Essa é a prova de que a humanidade sabe compartilhar felicidades e tristezas junta. É a prova de que sabemos e conseguimos viver em paz! Entendem o que isso significa?!
O futebol e o Corinthians criaram um novo conceito de nação. E é neste 1º de Setembro de 2010 que todos os amantes do futebol devem reconhecer a importância da Nação Corintiana. Tão diferente e inexplicável, somos uma torcida que tem um time. Somos o que somos graças também a todas as outras torcidas.
Já mudei várias vezes minhas idéias em relação ao mundo. Mudei de opinião religiosa, política e tudo mais. Mudo até de nome se precisar. Mas há uma única coisa que posso dizer com toda a certeza: de time não mudo nunca. Corinthians até o fim!

terça-feira, 13 de julho de 2010

Salve o Rock

Hoje é dia mundial do Rock!!!
Como Rock é atitude, sinto que devo fazer a minha parte nesse dia. E devo começar agindo localmente. Vamos direto ao ponto: o lendário Rock Brasileiro hoje tá uma merda! Aliás, uma merda com purpurina!
Porra! Quem inventou essa bosta de Happy Rock? Rock não foi feito pra toda essa alegria e babaquice. Vocês parecem uma mistura de Clubbers com Emos! Quer ser colorido, fofo e bobo alegre vira pagodeiro! É simples: só troquem os instrumentos. As letras podem ficar as mesmas, assim como as roupas. O mundo brega aceitará vocês de braços abertos!
Sendo mais direto; Restart, Cine e outras bandas que não sei o nome: aqui vão umas aulinhas de Rock’n’Roll de verdade (para o caso de vocês não quiserem virar pagodeiros).
Primeira coisa e mais básica: Postura.
O mais incrível do Rock é que não é necessário nem saber tocar! Olha só! Perfeito pra vocês, não é mesmo? Com dois ou três bicordes vocês podem ser muito foda! Maaaaaaaaaaas, para isso é necessário o mínimo de postura. Vocês declararam que o Rock sempre teve cores escuras e que agora era hora de mudar. Pois é... Se querem mudar, façam o favor: Caiam fora! Não chamem a música de vocês de “Happy Rock”. Que tal Happy Feeble Minded? Vocês podiam ser coloridos, esse não é o problema. A questão é que a música de vocês não é ROCK, porra!

Vídeo aula nº 1



Vídeo Aula nº 2



Sacaram aquele negócio de postura agora?
Rock é do mal, velho! Há muitos anos o rock foi colorido, mas mesmo assim era do mal, era crítico! Psicodelia e quebra dos valores sociais. Atacava alguém.

Vídeo Aula nº 3



Simples, né? Então se querem ser astros de verdade, ataquem alguém. É só pôr um pouquinho de raiva e sentimento de justiça nesses coraçõezinhos cheios de ursos de pelúcia cor-de-rosa.
Ah, outra coisa! Sei que querem músicas românticas. E isso é mais do que possível no rock. Todos nós amamos, é verdade. Prestem atenção nas letras. Traduzam se necessário.


Vídeo Aula nº 4



Até os brutos amam. Bonita essa música, né? Tá vendo que é possível criar músicas românticas sem ser gay? Aliás, esse conceito de gay não tem nada a ver com homossexualidade, todos sabem. Grandes ícones do rock eram homossexuais, e isso fazia parte da contestação. E essa será a Vídeo Aula mais bizarra. Ela prova que mesmo sendo bicha louca, o Fred Mercury era muito mais macho que do que vocês todos. Isso resulta até na qualidade e força da música.

Vídeo Aula nº 5



Bem, e ninguém disse que é pecado estar alegre e tentar passar algo positivo para os outros. É sempre bom esquecer os problemas por um tempo e se divertir. Mas sem essa porra de “Color is the way”. COLOR IS THE GAY, MOTHERFUCKER!!!
É assim que se passa algo positivo, de forma a esquecer os problemas por um tempo.

Vídeo Aula nº 6



Não sei se vocês conhecem, mas este – independente de qualquer coisa – é o pai da Guitarra. A propósito, honrem esse instrumento. Ele é a espada que vocês têm pra lutar, como já dizia o nosso rei do Rock brasileiro.
Enfim, espero ter sido claro e objetivo. Esqueçam essa histeria retardada das fãs de vocês. Isso não é mérito nenhum. Deixem que a Saga Crepúsculo toma conta dessas garotinhas. E aprendam: não é fácil chegar no topo do Rock and Roll. Qualquer criança consegue aprender isso!
E aqui ficam minhas humildes dicas para que vocês comecem a entender esse gênero tão importante que mudou a História da Humanidade.

Vídeo Aula nº 7



Longa Vida ao Rock and Roll!

sábado, 22 de agosto de 2009

20 mil anos atrás


("Raul Seixas" em sua "moto").


(Bone do Raul feito por fãs do cantor. O boneco rodeou o "palco" até o fim).


("Raul" tocando na frente do teatro municipal).

Às vezes nos questionamos sobre o que é a obra-prima de um homem. Muitos são os artistas que partem para outro mundo deixando centenas de pinturas, filmes, músicas ou seja lá que arte for.
Alguns homens, porém, fazem da vida a sua mensagem artística. Outros, ainda, têm como grande feito sua mudança no mundo e nas pessoas.
Hoje, 21 de agosto de 2009 completaram-se 20 anos da morte do rei do rock brasileiro. Mas a data ou o tempo que se passou pouco importa; o legado de alguém pode ser eterno e imutável.
Pois muito tempo depois, num Brasil muito diferente, com gerações que sequer o conheceram, Raul ainda está presente na vida de muita gente.
Em São Paulo, foi organizada uma passeata como tributo ao Raulzito. E mais interessante do que o evento ou as músicas em si, foi a fraternidade entre as pessoas que circulavam pela Praça da Sé.
Todos conversavam como se conhecessem há dez mil anos atrás. Trocavam e-mails e anunciavam suas bandas. Ao contrário de outras ocasiões nos anos anteriores, estavam todos tranquilos, sem preocupação com brigas, assaltos ou qualquer violência. Inclusive, vi uma mulher esbarrar em outra e derrubar sua garrafa de cachaça, que se despedaçou no chão. Muito atenciosa, pediu desculpas e sacou do bolso um cartão. Logo explicou que era dona de um bar, e que ofereceria outra garrafa caso fosse lá.


(A esquerda o mendigo leia paragrafo abaixo).

E outro fato: havia mendigos abraçados com pessoas de classe A. Todos formaram uma grande corrente ao som de “Tente Outra Vez”, inclusive compartilhando copos e otras cositas más. O som da música estava baixo, mas o coro dos fãs dava conta da disseminação da letra das músicas.
Além da fumaça de variados tipos de cigarros, preenchia o ar um sentimento inexplicável de felicidade e irmandade. Todas as pessoas formavam uma linda matéria-prima de um autor que sequer imaginava o que era capaz de criar: um público único e maravilhoso.


(Catedral da Sé com a bandeira do Raul na porta. A praça ficou lotada por fãs).


("Raul" Tocando anoite a passeata durou até as 23h)


(Fãs do Raul ouvindo o som na frente do teatro).

sábado, 18 de abril de 2009

Apresento-lhes Dinocoldo!

Há anos tenho essa personagem em mente, e já até havia criado algumas tirinhas e charges.
Enfim, eis a primeira publicação da Dinocoldrix!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Crianças do Trânsito



Lá está o garoto sentado no ponto, esperando o próximo ônibus. Nas mãos uma caixinha de papelão cheia de balas e saquinhos de amendoim japonês. Quem toma ônibus nas proximidades do Terminal Capelinha ou Shopping Campo Limpo já o conhece de vista pelo menos desde 2007.
Há muito tempo penso em falar com ele. Tomei coragem e fui. Comprei uma balinha pra conquistar sua confiança, mesmo sabendo que assim colaborava com a proliferação do trabalho infantil.
Chama-se Tiago e disse-me que trabalha sempre de tarde e à noite, pois das 7h ao meio-dia fica na escola. É bem provável mesmo, pois está sempre com calça de uniforme escolar municipal. Também contou que tinha 12, quase 13 anos.
“Depois de amanhã [domingo] não trabalho, mas amanhã, sim”, disse com um ar sério, como um adulto já acostumado ao dever.
Quis saber se ele conhecia e conversava com as outras crianças que também trabalham da mesma forma naquela região. Não só conhecia como duas delas são suas irmãs mais novas. A propósito, essas duas podem ser vistas trabalhando até a circulação das últimas linhas, cerca de meia-noite.
Uma semana depois, fazendo baldeação do Terminal Capelinha, vi uma delas entrando num ônibus com sua caixinha. Dessa vez não tinha dinheiro pra comprar algo, mesmo assim puxei assunto. Disse que conhecia o Tiago e perguntei por ele. Ela toda sorridente respondeu que hoje ele não trabalhou. Será que então eles se revezavam nos dias de trabalho? Não, ela disse que hoje era uma data especial para ele, o que logo me fez concluir que era seu aniversário de 13 anos. Revezam apenas os horários de serviço, pois ela estuda à tarde.
Agora que ela já estava totalmente simpática, com aquele olhar brilhante de criança, mandei os parabéns e, como quem não quer nada, indaguei-lhe onde compra os doces. Segundo ela, sua mãe os compra em Santo Amaro ou no Capão Redondo mesmo. Moram próximo ao ponto final da linha Jd. São Bento, a mesma em que estávamos.
“Meu irmão faz até 90 reais por dia”, contou toda orgulhosa quando perguntei se conseguiam bastante dinheiro com as vendas. Fazendo as contas, é muito dinheiro. Ainda quis saber sobre seus pais, mas apesar de jovem, a menina entenderia o que queria com aquela pergunta e não responderia honestamente. Apenas consegui saber que seus pais não trabalham vendendo doces em ônibus.
Despediu-se com doçura, perguntando meu nome. O dela é Jenifer. E com um tchauzinho desceu do ônibus e atravessou a rua pra esperar o próximo.
Ao contrário do que geralmente se vê sobre esse assunto na TV e jornais, essas crianças trabalham com vontade e alegria. Cumprimentam e batem papo com todos os motoristas e cobradores. Por vários momentos, parecem se divertir, como se tudo fosse uma brincadeira. Parece ser um caso diferente. Mas também não dá para saber se essas crianças têm consciência do que estão passando, e se daqui a alguns anos vão pensar que eram INfelizes e não sabiam.
Mas nem todas as crianças trabalham felizes. Érica Campanha, 20, conta que uma vez presenciou uma cena triste num ônibus que passava próximo ao Shopping Fiesta. Um menino distribuiu seus doces aos passageiros já com uma cara de quem ia recolhê-los sem vender nada. E foi de fato o que aconteceu. Antes de sair, choramingou e se lamentou. Uma moça perguntou ao garoto o porquê daquele desânimo, e o menino cabisbaixo respondeu que ia apanhar da mãe por não trazer nada pra casa. “Era uma tristeza tão profunda, tão forte, que fazia me sentir como ele”, comenta Érica.
Fui conversar com alguns motoristas que vivem diariamente essa questão. Todos são opostos ao trabalho infantil. Segundo eles, todos os motoristas e cobradores acham errado uma criança ter de trabalhar, mesmo estando na escola.
“Se trabalhar não vai se dedicar à escola”, afirma Valmir Silva de Almeida, motorista. Contou que hoje sua filha mais nova tem 16 anos, mas, quando criança, jamais a colocaria pra trabalhar.
Apesar de a maioria ser contra o trabalho infantil, não há nenhum que não abra a porta para as crianças.
Segundo outro motorista, Jone Oliveira, a responsabilidade também deveria ficar com a fiscalização. O comércio dentro dos ônibus, independente se for realizado por crianças ou adultos, é proibido e acarreta multa ao motorista que infringir a lei. Jone já viu o rapa agir contra adultos e apreender suas mercadorias, mas “nunca vi recolherem nada de criança”.
A fim de saber como deveria funcionar a fiscalização, busquei ajuda de Fátima Lopes de Oliveira, assistente social do Fórum de Santo Amaro.
Estão ocorrendo algumas ações da prefeitura, mas nem sempre são totalmente efetivas. O que pode ser feito também é denunciar esses casos ao Conselho Tutelar.
Quando a ação funciona, profissionais visitam a família, e, dependendo da situação, o Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social), pode oferecer um auxílio financeiro de cerca de 40 reais por mês desde que a criança esteja na escola e não trabalhe.
Em outros casos, as crianças são levadas à Vara da Infância e encaminhadas a um abrigo. Isso ocorre principalmente quando há agressão por parte dos pais.
“Devido aos maus tratos, algumas dessas crianças fogem de casa e vivem nas ruas, entregues ao crime e às drogas”, explica Fátima. “Fora de casa, também são explorados pelo ‘Pai da Rua’, que os alicia e lhes exige cerca de dois terços do dinheiro obtido. Além, claro, de os encaminhar às drogas”.
Na última semana, Fátima entrevistou uma família que havia sido denunciada há dois anos pela Associação dos Moradores do Jd. Sta. Lúcia. A mãe de cinco crianças foi acusada de forçá-los a trabalhar. A própria mãe nunca trabalhou, vivia sustentada pelos filhos e pelo marido que era pintor.
Desde cedo, pôs seus filhos para trabalhar em faróis. Nenhum deles foi além da 4ª série, e hoje estão todos crescidos. A mais velha foi a única que não trabalhou na infância, pois fora criada pela avó. Porém, os demais sempre trabalharam. Dos cinco filhos, três são mulheres, e todas engravidaram na adolescência. A mais nova, hoje com 15 anos, tem uma filha de dois meses, cujo pai é outro jovem que também trabalha em faróis.
A mais velha, hoje com 22 anos, disse na frente da mãe que jamais colocaria sua filha de 5 para trabalhar.
“Isso é pra se ter uma noção de como uma mãe negligente pode acabar com o futuro dos filhos”, encerra Fátima.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O mundo em algumas linhas

Enquanto homens bomba explodem no Iraque sem que ninguém perceba – com exceção dos iraquianos –, o mundo assiste à posse de seu mais novo presidente, Barack Hussein Obama. Pela primeira vez em mais de 232 anos de história estadunidense, um negro participou da cerimônia (e não como segurança!).
A festa foi embalada por diversos shows, como Beyoncé, Bruce Springsteen, Stevie Wonder e U2. Sem dúvida o novo presidente tornou-se um fenômeno pop, falar de política agora é está na moda. E continuará pelo menos até a euforia baixar, seja daqui a anos, quando o mandato de Obama acabar, ou quando algum erro político fizer com que a população enxergue os pés de barro do novo messias.
Já no Oriente Médio, o interesse político não é tão grande, mas os bombardeios sim. Nos ataques, israelenses não perdoaram sequer o hospital do Crescente Vermelho e um prédio da ONU. As ofensivas ao Hamas (que hoje declarou-se vitorioso) foram consideradas uso excessivo de força. Também hoje, o exército israelense retirou-se da Faixa de Gaza, deixando mais de 1.300 mortos e 5.000 feridos, segundo fontes médicas.
Falando em religião, neste último domingo o Plantão da Globo interrompeu o interessantíssimo Domingão do Faustão para informar que o teto da igreja Renascer em Cristo do bairro do Cambuci desabou, deixando nove mortos até o momento. As paredes do prédio começarão a ser demolidas amanhã.

domingo, 2 de novembro de 2008

Racismo é burrice

Pode parecer uma conclusão besta, mas por incrível que pareça, branco sofre racismo (de forma contrária, claro). É até compreensível, pois o racismo se tornou mecânico nas pessoas.
Estava com meu irmão no ônibus, voltando pra casa. Devido ao azar estávamos sentados nos últimos bancos quando três jovens se aproximaram. Dois negros e um branco (com aquele cabelo meio descolorido e com gel, bem ridículo…). Olhei pelo vidro traseiro pra ver se o outro ônibus que me leva pra casa já vinha.
– Bem que o Capão Redondo – nome do ônibus – poderia passar agora...
Nisso fomos abordados.
– Passa celular e carteira.
Nunca havia sido assaltado, não fazia idéia de qual seria a minha reação. Surpreso comigo mesmo, comecei a negociar. Não tinha nada na carteira, apenas documentos. E isso não é modo de falar, não tinha nada mesmo e deixei os assaltantes bem cientes disso. Lógico, tive de provar também. Depois de frustrá-los, pediram-me o celular. Nova cara de frustração.
– Porra, pode ficar. Isso aí não tem nem música.
Então chegou a vez do meu irmão. Nessa hora fiquei feliz por saber que ele tinha gasto o dinheiro, mas ainda havia quinze reais na carteira. Havia.
Depois de ter revirado todos os bolsos, os bandidos finalmente acreditaram que meu irmão não tinha celular em pleno ano de 2008. A cara de incredulidade deles foi ainda mais fantástica.
– Então vamos pegar os tênis!
Mais uma decepção. Fiquei até sem jeito por não poder ajudar minhas companhias. Um par de All Star velhos e outro par de marca genérica mais velhos ainda.
Infelizmente nenhum deles ficou conformado em levar apenas quinze reais pra casa. Isso dividido entre os três mal daria pra um “cafezinho”. Até porque ainda se descontaria quase metade da grana com as passagens. Talvez por isso, lembraram-se de pedir meu Bilhete Único.
Parece brincadeira, só que mais uma decepção. Porém, dessa vez eles só a teriam mais tarde. O bilhete não tinha mais do que cinqüenta centavos de crédito. Eu até avisei, mas eles não quiseram acreditar em mim. Vê se pode!
Decepcionado, um deles resolveu pedir o celular mesmo assim. Pedi o ship, claro. Como um legítimo gentleman do Capão, o azarado ladrão atendeu a meu pedido.
Olhei para o lado. A moça loura também havia sido roubada. Acredito que com ela obtiveram mais êxito; pelo menos é o que demonstrava a cara dela. Ao meu outro lado um cara ouvia música no celular. Aliás, já se despedia do aparelho. Porém, nada fizeram a ele. Acho que também quiseram me ver com cara de bobo pelo menos por uma vez.
Antes de irem embora, o líder deles disse:
– Quando você “ver” uns caras suspeitos assim. Não precisa inventar que vai pro Capão!
Nessa hora o sangue subiu, mas não fiz nada, óbvio. Apenas respondi:
– Mas eu moro no Capão!
Fizeram outra cara incrédula. Já tinha até perdido a conta de quantas vira aquela noite. Aonde mais eu poderia estar indo naquele ônibus?! Como eles não foram capazes de ter este raciocínio?
O pior é a burrice. Meu irmão com tênis e roupa velha, camiseta azul desbotada. Este outro pobre coitado com uma bermuda velha (já a tenho há mais de cinco anos!) e uma camiseta do Gandhi descosturada e suja de sorvete, que foi até alvo de comentário de um dos rapazes.
Afinal, por que assaltaram dois caras muito mal vestidos, sem dinheiro e com apenas um celular velho (e até rejeitado)? Por que diabos insistiram tanto em nos roubar?
Fomos assaltados por gente muito mais bem vestida do que nós, consternados irmãos. O que aparentávamos de ricos? Infelizmente apenas a pele bem clara, assim como daquela loira e ao contrário daquele sortudo ao meu outro lado, que foi embora ouvindo música ao celular e me consolando também abismado.
Sob qualquer circunstância, racismo é burrice.

sábado, 11 de outubro de 2008

Um velho homem jovem

Nunca desista de seus sonhos. É esse manjado jargão título de livro de auto-ajuda que define uma das mais impressionantes almas que conheci.
Como qualquer boa história, não surgiu numa circunstância de alto nível ou num encontro de intelectuais, se bem que até poderia ter ocorrido nessa última suposição.
Conheci José Antônio no ônibus, voltando pra casa cansados como em todos os dias. Estava com meu amigo Josiel e sentamos de frente pra ele, conversando sobre trabalho infantil e violência. Como o destino parecia ter reservado, José entrou no assunto, e logo viajamos pelas mais diversas atualidades.
Como se já não fosse suficiente voltar pra casa com uma boa conversa que faça passar o tempo, conheci coisas fantásticas sobre aquele homem.
De início já havia notado suas feições interessantes. Um sorriso humilde, com o canino esquerdo faltando e um olhar que parecia cansado e com um brilho que contrastava estranhamente com as expressões de alegria que surgiam durante a viagem.
Ele nos contou que trabalhava com jardinagem, e que de vez em quando procurava outras formas de se arranjar dinheiro. O ritmo subordinado paulistano não agradava nem um pouco a mente desenvolvida daquele pernambucano.
Dentre uma de suas maneiras alternativas de fazer dinheiro está a arte. Tirou de sua bolsa umas folhas de papel canson com desenhos fantásticos. Nunca vi traços tão bem feitos como os dele. Desenhados à carvão estavam os rostos de Glória Menezes e Tarciso Meira. Adoro arte, e desde pequeno me fascino por desenhos em preto e branco. Sempre quis saber desenhar rostos, mas o máximo que posso é desenhar animais e fazer pouquíssimas caricaturas. De todos os retratos feitos à mão, nunca vi algo tão perfeito. Nunca vi tantas expressões perfeitamente trabalhadas! Não há dúvida de que aqueles simples traços à carvão revelam mais detalhes do que uma moderna câmera digital.
Fascinado com o que via, despedi-me de Josiel, que devia descer no próximo ponto. Agora conversava sozinho com José Antônio. Não exatamente sozinho, pois o ônibus todo já estava emitindo diversos “ohhhhs” de admiração pelos retratos vistos. Enquanto conversava com ele, sentia que o assunto era acompanhado por muitos passageiros, que esqueciam a TVO para assistir minha entrevista com aquele artista.
Sabia que um homem que desenhava daquela forma também possuía mais qualidades. Logo perguntei se sua sensibilidade era somente para arte ou para mais alguma outra coisa. E como já esperava, a resposta foi sim.
Quando era criança, ainda em Pernambuco, José viu a chegada do homem à lua pela televisão. E por incrível que pareça, aquele jovem não ficou excitado em ver Neil Armstrong pisando em outro corpo celeste, mas sim com as conversas em inglês dos astronautas e sua base na Terra. Assim ficou fascinado pela língua estrangeira, definindo como uma meta para sua vida alcançar a fluência em outros idiomas.
O mais fantástico (e o que faz jus à primeira frase desse texto), é que mesmo sem cursos, José hoje fala inglês. Após vinte anos olhando em dicionários, lendo livros e observando outros conversarem, atingiu sua fluência no idioma. E não satisfeito (como todo grande homem é) ainda aperfeiçoa hoje o espanhol, francês e alemão. E contou-me que também quer aprender o hebraico.
Ora, tanta vitalidade não é comum nem em jovens, quanto mais para um homem de quase cinqüenta anos. Já cansei de ver pessoas conformadas, fracas, abandonando seus sonhos. E pessoas com mais de quarenta anos raramente ainda mantém sonhos grandes. Mas uma pessoa excepcional nunca envelhece. Enquanto você ainda está disposto a aprender mais, e sempre estar apto a mudar de opinião, você ainda é jovem.
Todo aquele que é realmente jovem vive como um romântico sonhador. Só os velhos se tornam conformados e vice-versa, não sendo raro encontrar velhos de vinte anos.
Mais impressionante ainda, José Antônio sonha muito mais alto. Quer dar aula na Universidade de Cambridge. E apesar de ser considerado lunático por muitos, sei que não se acha velho pra isso. Mesmo não possuindo nenhum curso superior, apenas o 2º grau.
Num outro dia, encontrei novamente com ele no ônibus. Em alguns meses, encontrei-o quatro vezes em minhas voltas pra casa. Na última não passamos muito tempo juntos, de modo que nossa conversa foi pouca. Mas as três primeiras vezes foram se tornando gradativamente mais absurdamente interessantes.
A terceira vez foi definitivamente a mais interessante. Tinha mostrado pra ele um texto meu sobre a relação de homens e mulheres. Das dezenas de trechos que ele poderia ter escolhido pra ler, escolheu justo e meramente a que dizia que alguém pode apaixonar-se diversas vezes na vida, e sempre pela mesma pessoa. José me disse que aquilo era bem verdade, e que já o havia vivido. Instintivamente perguntei se ele era casado, mas respondeu-me que ela morrera. Isso foi uma facada em mim. Logo entendi o porquê de seu olhar parecer sempre meio cansado e contrastar tanto com seu sorriso. Havia nele a dor de quem já perdeu o que teve de melhor, e que vivia com algum amargor. José viveu com sua amada nos anos em que esteve na Inglaterra, trabalhando também como jardineiro, e sobretudo, tornando-se fluente no inglês.
Fiquei absolutamente louco para saber mais dessa outra história. Mas não conseguia voltar ao assunto, até porque Josiel já o desviara. Depois que meu amigo desceu do ônibus, tentei retomar minha curiosidade.
Comecei a falar sobre o romantismo de cidades inglesas e perguntei se ele já tinha o curtido.
Lógico que sim, e justamente com aquela moça. Imerso em curiosidade, pedi desculpas e perguntei qual a causa da morte dela.
Respondeu-me em inglês:
- Remédios.
- De quê?
- Dor de cabeça e antidepressivos. Eu dizia que aquilo faria muito mal a ela...
Com os olhos voltados para cima, José me contou como foi que a perdeu.
- Ela era linda, muito linda...
E me disse que num certo dia ela pediu para que ele dormisse na casa dela, pois não estava sentindo-se muito bem. José lá dormiu, mas teve a pior surpresa de sua vida ao acordar. Encontrou-a fria na cama.
- E ver o amor da sua vida morto não é fácil, você não consegue acreditar – disse-me com os olhos notadamente marejados.
Gostaria muito de saber o nome dela, mas isso não importava, eu não conseguia mais continuar naquele assunto. Era tudo muito forte, sentia um nó doloroso em minha garganta. Certamente ele ainda a ama. Mesmo mais de vinte anos após perdê-la, ainda possui o mesmo sentimento intenso por ela. Enquanto escrevo volto a querer chorar por ele, por essa injustiça ocorrida.
Tal fato só me fez aumentar a admiração por ele. Imaginei assim por que ele havia voltado ao Brasil, mesmo tendo ele afirmado que foi por alguns amigos que haviam dito que o Brasil era então um lugar melhor pra se viver.
Não sei se o caro leitor me compreende quando me refiro ao espírito de juventude que faz parte de algumas pessoas desse mundo. Mas José Antônio provou ser a pessoa que conheço cuja alma abriga com mais intensidade esse espírito. Um homem apaixonado e com sonhos, e já com cinqüenta anos.
A maior prova de juventude e força que já conheci. Realmente a minha inspiração, meu Herói anônimo, uma das luzes que ilumina esse mundo chato, burro e sem esperança.

domingo, 28 de setembro de 2008

The Led Return


Desde dezembro do ano passado, os fãs de Led Zeppelin estão ansiosos pra saber se a banda realmente irá engatar um retorno triunfal aos palcos, com uma nova turnê mundial.
O drama estava em torno de Robert Plant, que não queria voltar definitivamente com o Zeppelin, pois estava concentrado na turnê com a cantora Alison Crauss.
A banda chegou a considerar a possibilidade de um retorno com um outro vocalista, chegando até a fazer testes para seleção.
Mas segundo o The Sun, Robert Plant confirmou sua volta aos vocais da lendária banda.
Resta aos mortais torcer para que ninguém da banda mije pra trás. Ao nosso terceiro mundo, resta o fio de esperança de uma visita da banda.
E há quem diga que o retorno seria uma besteira, já que não são mais os mesmos, que Plant já não tem mais a mesma voz, que Jason não se iguala ao pai na bateria etc. e tal.
Mas independente de qualquer coisa, a volta seria um sucesso (até porque talvez seja a última turnê), e já sonhando bastante, por que não um novo disco?